A tradição reformada do século XVI não rejeitou a linguagem sacramental, mas a redefiniu à luz de sua compreensão da Escritura, da justificação e da soberania da graça. Em contraste com a consolidação dos sete sacramentos no Concílio de Trento, os reformadores limitaram os sacramentos àqueles que, segundo seu entendimento, foram claramente instituídos por Cristo e vinculados a promessa explícita do evangelho: o batismo e a ceia do Senhor. Essa redução não pretendia empobrecer a vida eclesial, mas proteger a natureza do evangelho contra aquilo que viam como proliferação de ritos sem fundamento apostólico direto.
Para João Calvino, sacramento é “sinal externo pelo qual o Senhor sela em nossas consciências as promessas de sua boa vontade”. Essa definição é decisiva. O sacramento não cria a promessa, mas a confirma; não produz graça de modo automático, mas é instrumento pelo qual o Espírito fortalece a fé. A eficácia sacramental, portanto, não opera independentemente da fé, nem por mera realização do rito. Palavra e sacramento pertencem inseparavelmente à mesma economia da graça: a Palavra proclama, o sacramento confirma visivelmente.
O fundamento bíblico para essa compreensão encontra-se na natureza da aliança. Assim como no Antigo Testamento havia sinais visíveis — como a circuncisão e a Páscoa — que acompanhavam a promessa divina, também no Novo Testamento o batismo e a ceia funcionam como sinais e selos da nova aliança em Cristo. O batismo é entendido como sinal de união com Cristo, purificação dos pecados e incorporação ao corpo visível da Igreja. Ele não é mera profissão humana de fé, mas sinal objetivo da promessa divina, razão pela qual a tradição reformada clássica manteve o batismo infantil, compreendendo-o dentro da continuidade pactual entre Antigo e Novo Testamento.
A ceia do Senhor ocupa lugar central na vida da Igreja reformada. Contudo, a compreensão da presença de Cristo na ceia difere tanto da transubstanciação romana quanto do memorialismo estrito. Calvino afirmou que Cristo está realmente presente, mas de modo espiritual. Não se trata de mudança substancial dos elementos nem de simples recordação subjetiva. O Espírito Santo eleva o crente à comunhão real com Cristo, que permanece corporalmente à direita do Pai. Assim, a ceia é meio pelo qual o fiel participa verdadeiramente de Cristo, ainda que essa participação não seja física ou local. Essa posição distingue-se também da compreensão luterana, associada a Martinho Lutero, que afirmava presença real sacramental vinculada aos elementos, sem recorrer à transubstanciação, mas mantendo forte objetividade na presença corporal. A tradição reformada clássica, por sua vez, enfatiza mediação espiritual pelo Espírito, preservando distinção clara entre sinal e realidade significada.
A teologia reformada insiste que os sacramentos não possuem eficácia automática. A graça não é comunicada mecanicamente pelo rito, mas através da ação soberana do Espírito que opera pela fé. Essa convicção está profundamente ligada à doutrina da justificação pela fé somente. O sacramento não acrescenta mérito, nem constitui canal independente de salvação; ele confirma e fortalece aquilo que já é prometido no evangelho. A fé continua sendo o instrumento pelo qual o crente se apropria de Cristo.
Outro elemento distintivo é o princípio regulador do culto. Na tradição reformada, somente aquilo que possui base clara nas Escrituras pode ser instituído como prática normativa da Igreja. Essa convicção levou à rejeição de ritos considerados não instituídos explicitamente por Cristo. O sacramento é, portanto, inseparável da autoridade bíblica. Do ponto de vista eclesiológico, os sacramentos são marcas da verdadeira Igreja. Onde o evangelho é fielmente pregado e os sacramentos corretamente administrados, ali a Igreja é reconhecida. A centralidade permanece na Palavra, mas a Palavra visível — expressão frequentemente usada para descrever os sacramentos — desempenha papel indispensável na vida comunitária.
A tradição reformada clássica, assim, preserva alta teologia sacramental, mas subordina-a inteiramente à soberania da graça e à primazia da Escritura. Os sacramentos não são acréscimos ao evangelho, mas instrumentos pelos quais Deus confirma suas promessas ao seu povo dentro da economia da aliança.