Quem escreveu a Bíblia?

27/02/2026 Teologize 12 min de leitura
Quem escreveu a Bíblia? Um estudo sobre a dupla autoria das Escrituras, sua inspiração divina, confiabilidade histórica e autoridade segundo o próprio testemunho bíblico.

Poucas perguntas são tão fundamentais para a fé cristã quanto esta: quem escreveu a Bíblia?

À primeira vista, a resposta parece simples: Moisés, Davi, Isaías, Paulo, João e muitos outros. No entanto, essa resposta é apenas parcial. Se a Bíblia foi escrita por homens, por que os cristãos afirmam que ela é Palavra de Deus? Se houve participação humana, como garantir que o texto não contém distorções ou erros?

A resposta bíblica não elimina o fator humano — ela o integra dentro de algo maior.

A Bíblia Como Revelação

O cristianismo é uma fé revelada. Deus não permaneceu em silêncio. Ele se revelou progressivamente na história, por meio de atos redentivos e, finalmente, por meio de palavras inspiradas.

Essa revelação não foi transmitida apenas oralmente. Ela foi registrada.

A Bíblia é o registro escrito da auto revelação de Deus. Isso significa que não estamos diante de reflexões humanas sobre Deus, mas do testemunho de Deus sobre Si mesmo.

O apóstolo Pedro declara:

“Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21)

Note o equilíbrio: homens falaram. Mas falaram da parte de Deus.

O Fator Humano Compromete a Inspiração?

Uma das maiores objeções modernas é esta: se homens escreveram, então a Bíblia é apenas um produto humano.

Mas essa conclusão ignora o próprio testemunho das Escrituras.

Paulo afirma:

“Toda a Escritura é inspirada por Deus.” (2 Timóteo 3:16)

O termo usado ali significa literalmente “soprada por Deus”. A origem última do texto não é a criatividade humana, mas o sopro divino.

Contudo, isso não significa que Deus tenha transformado os autores em máquinas de escrever espirituais. Pelo contrário: cada livro da Bíblia carrega o estilo, vocabulário e personalidade do seu autor.

Lucas escreve com estrutura histórica organizada.

 Paulo desenvolve argumentação teológica complexa.

 João escreve com profundidade simbólica e linguagem simples.

A inspiração bíblica não anula a individualidade humana — ela a utiliza.

A melhor explicação histórica adotada pela Igreja é a chamada inspiração plenária e verbal: Deus supervisionou e guiou os autores de tal maneira que aquilo que escreveram foi exatamente o que Ele desejava comunicar, sem violar sua personalidade ou contexto histórico.

A Confiabilidade Histórica da Bíblia

Além da questão teológica, há também a questão histórica.

A Bíblia não é um livro mitológico surgido séculos depois dos acontecimentos. No caso do Novo Testamento, possuímos mais de 5.000 manuscritos gregos — número incomparável com qualquer outra obra antiga.

O fragmento mais antigo conhecido (P52) data de aproximadamente 25 a 30 anos após os escritos originais. Para comparação:

  • A Ilíada de Homero possui cerca de 640 manuscritos, com intervalo de 500 anos.
  • Platão é conhecido por cerca de 7 manuscritos, mil anos posteriores aos originais.
  • Aristóteles possui cerca de 30 cópias tardias.

Se aplicarmos à Bíblia o mesmo critério usado para validar obras clássicas, sua confiabilidade textual é extraordinária.

Além disso, fontes externas como o historiador judeu Flávio Josefo e o romano Tácito confirmam elementos centrais da narrativa cristã, incluindo a execução de Jesus sob Pôncio Pilatos.

A Questão do Cânon e os Livros Apócrifos

Outra dúvida comum é se livros foram removidos da Bíblia ao longo da história.

O que ocorreu, na verdade, foi um processo de reconhecimento do cânon — isto é, dos livros que já eram considerados inspirados pela comunidade de fé.

O Antigo Testamento utilizado por Jesus correspondia ao cânon hebraico, que não incluía os chamados livros deuterocanônicos. Esses escritos, produzidos no período intertestamentário, tinham valor histórico, mas não eram reconhecidos como Escritura inspirada pelos judeus do primeiro século.

A Reforma Protestante não “retirou” livros da Bíblia; apenas manteve o cânon tradicional hebraico para o Antigo Testamento.

Jesus e a Autoridade das Escrituras

O próprio Cristo demonstrou confiança absoluta nas Escrituras.

Quando foi tentado no deserto, respondeu repetidamente com:

“Está escrito.”

Em debates teológicos, confrontava seus opositores dizendo:

“Errais, não conhecendo as Escrituras…” (Mateus 22:29)

Para Jesus, a Escritura não era mera tradição religiosa. Era autoridade final.

Se Cristo confiava nas Escrituras como Palavra de Deus, essa postura molda também a postura cristã.

A Bíblia Contém Erros Científicos?

Alguns argumentam que a Bíblia contém imprecisões científicas. Essa crítica parte de um equívoco metodológico.

A Bíblia não foi escrita como manual de física, biologia ou astronomia. Ela utiliza linguagem comum, fenomenológica — como quando diz que “o sol se pôs”. Essa não é afirmação científica, mas descrição observacional.

Seu propósito central é revelar Deus e conduzir o ser humano à fé.

Exigir que a Bíblia opere dentro dos parâmetros científicos modernos é impor ao texto uma expectativa que ele nunca reivindicou.

Uma Dupla Autoria

A melhor síntese talvez seja esta: a Bíblia possui dupla autoria.

  • Autoria humana real.
  • Autoria divina soberana.

Os homens escreveram com sua linguagem, cultura e contexto. Mas a iniciativa, a supervisão e o propósito final pertencem a Deus.

Essa visão não reduz a Escritura a mero produto humano nem a transforma em ditado mecânico. Ela preserva o mistério e a profundidade da revelação divina.

Conclusão

Perguntar “quem escreveu a Bíblia?” leva inevitavelmente a uma pergunta maior: qual é a sua autoridade?

Se a Bíblia é apenas obra humana, ela pode ser debatida, adaptada ou descartada conforme a conveniência cultural.

Mas se ela é, de fato, Palavra inspirada por Deus, então ela não é apenas informativa — é normativa.

Ela não apenas descreve a fé cristã.

 Ela a fundamenta.

Confiar na Bíblia não é suspender a razão, mas reconhecer a coerência de seu testemunho interno, sua base histórica sólida e a consistência de sua mensagem ao longo dos séculos.

No fim, a questão não é apenas quem escreveu a Bíblia.

A questão é: estamos dispostos a ouvir o que ela diz?